Música & Cultura 31 JUL 2026

Sennheiser: do laboratório numa fazenda destruída pela guerra ao trono dos fones — e a cisão que divide a marca em duas

Fritz Sennheiser recusou uma oferta para trabalhar em Cambridge, ficou na Alemanha devastada e fundou uma empresa que inventou o fone aberto, equipou o Woodstock, ganhou um Oscar e agora enfrenta o futuro dividida entre audiofilia e aparelhos auditivos.

MÚSICA & CULTURA

Em junho de 1945, a Alemanha estava em ruínas. O laboratório de Fritz Sennheiser na Universidade de Hannover havia sido destruído por bombardeios, e as forças britânicas de ocupação tinham tornado pesquisa em radiofrequência um crime capital. Os britânicos ofereceram a Fritz — que havia desenvolvido tecnologia de áudio para as Olimpíadas de Berlim em 1936 — a chance de continuar seu trabalho em Cambridge, na Inglaterra. Ele recusou.

Em vez disso, Fritz e sete engenheiros se instalaram numa fazenda abandonada na vila de Wennebostel, município de Wedemark, perto de Hannover. Fundaram o Laboratorium Wennebostel — Labor W. O primeiro produto foi um voltímetro vendido para a Siemens. Microfones vieram em 1946. A fazenda original continua de pé no centro do campus moderno da Sennheiser.

Os marcos que definiram a indústria

O MD 421, lançado em 1960, tornou-se um dos microfones mais vendidos da história — mais de 500.000 unidades produzidas, ainda em fabricação seis décadas depois. Mas foi o HD 414, de 1968, que mudou tudo: o primeiro fone de ouvido aberto do mundo. Mais de 10 milhões de unidades vendidas. A Sony precisou da patente do HD 414 para lançar o Walkman — e pagou royalties à Sennheiser por dez anos.

O discurso de Martin Luther King, I Have a Dream (1963), foi captado com microfones Sennheiser. O mesmo vale para o Tear Down This Wall de Ronald Reagan em 1987. A Stasi, polícia secreta da Alemanha Oriental, usava microfones magnéticos Sennheiser mm26 como dispositivos de espionagem.

Em 1988, o HD 25 foi desenvolvido para o entretenimento de bordo do Concorde. Passageiros ricos — muitos deles músicos — levavam os fones para casa, popularizando o modelo nos círculos musicais. Assim nasceu, por acidente, o fone de DJ mais icônico do mundo.

O Orpheus e a busca pela perfeição

Em 1991, a Sennheiser lançou o Orpheus HE 90 — fone eletrostático com apenas 300 unidades produzidas, vendido originalmente por US$ 13.000. Em 2015, veio o sucessor HE 1: o fone mais caro do mundo, a US$ 55.000, com chassis em mármore de Carrara — o mesmo tipo de mármore que Michelangelo usou em suas esculturas. O HE 1 não é apenas um produto; é uma declaração de intenções.

Enquanto isso, a série HD 600/650/800 definia o padrão de referência para fones audiofilia por mais de duas décadas. O HD 800 (2009) permanece entre os fones abertos mais respeitados do mercado.

A cisão: profissional vs. consumidor

Em 2022, a Sennheiser vendeu sua divisão de consumo para a Sonova, fabricante suíça de aparelhos auditivos, por EUR 241 milhões. A marca nos fones Momentum, HD e IE que você compra na loja agora pertence à Sonova, sob licença perpétua do nome Sennheiser.

A família Sennheiser ficou com o áudio profissional: microfones, sistemas wireless, a Neumann (adquirida em 1991), o sistema AMBEO de áudio imersivo e a recém-lançada plataforma Spectera de wireless bidirecional de banda larga.

Em março de 2026, a Sonova anunciou planos de vender novamente a divisão de consumo — apenas quatro anos após a aquisição. A divisão representava somente 6% da receita da Sonova, sofreu queda de 11,6% nas vendas e recebeu uma multa de EUR 6 milhões por fixação ilegal de preços. Até julho de 2026, nenhum comprador foi anunciado.

O legado de Fritz

Fritz Sennheiser morreu em 2010, aos 98 anos. Seus netos, Daniel e Andreas, assumiram como co-CEOs em 2013. Em janeiro de 2026, Andreas tornou-se CEO único, com Daniel passando à presidência do conselho. A empresa profissional faturou EUR 463,1 milhões em 2025, com 2.171 funcionários. A fabricação permanece em Wedemark, com fábricas adicionais na Irlanda, Romênia e Novo México.

A filosofia de Andreas ecoa o avô: engenheiros precisam de espaço e tempo para ideias malucas. E a fazenda de 1945 continua lá, cercada por escritórios modernos e uma creche — lembrando de onde tudo começou.

⌬ FIM · 3 min de leitura

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