Música & Cultura 30 JUL 2026

Marshall: do menino com tuberculose óssea que dançava sapateado ao império de um bilhão de euros que definiu o som do rock

Jim Marshall fabricou amplificadores em galpões usando emblemas de caixões de funerária. Pete Townshend pediu que cortassem um gabinete ao meio. Hendrix comprou três stacks num dia. E assim nasceu o som mais icônico da música.

MÚSICA & CULTURA

Jim Marshall passou parte da infância confinado num gesso de corpo inteiro. Tuberculose óssea. Os médicos não tinham certeza se ele voltaria a andar. O pai sugeriu sapateado para fortalecer as pernas. O menino descobriu que tinha ritmo — e uma obsessão por som que definiria o resto da sua vida e, sem exagero, a história do rock.

A loja de baterias que mudou tudo (1960-1962)

Em julho de 1960, Jim abriu uma loja de instrumentos chamada Jim Marshall and Son no número 76 da Uxbridge Road, em Hanwell, oeste de Londres. O negócio era vender baterias e dar aulas. Mas a clientela tinha outros planos.

Guitarristas jovens e ambiciosos — entre eles Pete Townshend e Ritchie Blackmore — frequentavam a loja e reclamavam da mesma coisa: não havia amplificadores que soassem como eles queriam. Os Fenders americanos eram caros, raros na Inglaterra e, na opinião deles, limpos demais. Eles queriam algo mais sujo, mais agressivo, mais alto.

Jim ouviu. E agiu.

O JTM45: nascido em galpões (1962)

Jim reuniu Ken Bran (técnico de reparos da loja), seu filho Terry e o jovem engenheiro Dudley Craven, ex-EMI e BBC. Juntos, trabalhando em galpões de construção, desenvolveram um amplificador baseado no circuito do Fender Bassman — mas com modificações britânicas cruciais: válvula de pré-amplificação 12AX7 (mais ganho que a 12AT7 da Fender), transformadores Radio Spares britânicos e quatro falantes Celestion de 12 polegadas em gabinete fechado.

O resultado foi o JTM45 — J e T de James e Terry Marshall, 45 pelos watts nominais. No primeiro dia em exibição na loja, recebeu quase 30 encomendas. A produção inicial foi de seis unidades, montadas à mão. Os emblemas do painel frontal? Comprados de um fornecedor de ferragens funerárias de Birmingham. Literalmente, badges de caixão no amplificador mais revolucionário do rock.

“Queríamos algo como um Fender, mas muito mais.”

Ken Bran, co-criador do JTM45

O Bluesbreaker e Clapton (1966)

Quando Eric Clapton plugou uma Gibson Les Paul num Marshall Model 1962 combo e girou o volume até 10 para gravar com o John Mayall Bluesbreakers, ele criou o tom definitivo do blues britânico. O álbum resultante — apelidado de “The Beano Album” — chegou ao 6º lugar nas paradas britânicas.

A ironia? Clapton escolheu o combo em vez do cabeçote simplesmente porque era mais barato e cabia na van de Mayall. Uma decisão pragmática que criou uma lenda.

“Corte ao meio”: a invenção do Marshall Stack (1965)

Pete Townshend voltou à loja com uma exigência: um amplificador de 100 watts — o dobro do JTM45 — para ser ouvido por cima da bateria ensurdecedora de Keith Moon. Jim construiu o JTM45/100. Townshend então pediu um gabinete com oito falantes de 12 polegadas. Jim avisou: “Os roadies não vão gostar.”

Pete insistiu. Construíram o 8×12. Era absurdamente pesado e impraticável. Townshend voltou e pediu que cortassem ao meio. Jim empilhou um 4×12 reto embaixo, um 4×12 angulado em cima e o cabeçote no topo. Resultado: o Marshall Stack, com quase dois metros de altura — o símbolo visual e sonoro mais icônico do rock. Nascido de um erro de cálculo e uma serra.

Hendrix entra pela porta (1966)

Em 11 de outubro de 1966, Jimi Hendrix entrou na loja de Jim Marshall em Hanwell e comprou três stacks de 100 watts. Naquele momento, a trajetória de ambos mudou para sempre. Hendrix não apenas usou os amplificadores Marshall — ele redefiniu o que era possível com eles, extraindo feedback, distorção e sons de outro planeta que ninguém imaginava.

Estima-se que Hendrix possuiu entre 50 e 100 amplificadores Marshall durante sua carreira. Do Monterey Pop Festival ao Woodstock, seus muros de Marshall tornaram-se tão icônicos quanto o próprio guitarrista. E Marshall tornou-se uma marca global.

As décadas de domínio

A partir dos anos 70, Marshall se tornou sinônimo de rock pesado. O JCM800 (1981) — batizado com as iniciais de Jim Charles Marshall e o número da placa do seu carro — definiu o som do heavy metal dos anos 80. O Silver Jubilee de 1987 se tornou cult. O JCM900 carregou os anos 90. O JVM (2007) estabeleceu o padrão de versatilidade valvulada.

A lista de artistas que construíram seu som com Marshall é essencialmente a história do rock: Led Zeppelin, AC/DC, Slash, Oasis, Metallica, entre dezenas de outros.

Do palco para o bolso: a era do áudio consumer (2010-presente)

Em 2010, Marshall firmou uma parceria de licenciamento com a Zound Industries, empresa sueca de eletrônicos de consumo. A Zound começou a produzir fones de ouvido e caixas Bluetooth com a marca Marshall — e o resultado foi explosivo. A estética dos amplificadores (couro preto, detalhes dourados, knobs de latão) traduziu-se perfeitamente para produtos de estilo de vida.

Caixas como a Stanmore, Acton, Emberton e Middleton levaram o nome Marshall para mais de 90 países, muito além do público guitarrista. Em março de 2023, a Zound adquiriu a Marshall Amplification por inteiro, renomeando-se Marshall Group AB. A família Marshall ficou com 24% da nova entidade. Receita combinada no primeiro dia: mais de US$ 360 milhões.

Bilhão de euros e o futuro

Em janeiro de 2025, o HongShan Capital Group (ex-Sequoia China) adquiriu participação majoritária no Marshall Group numa transação avaliada em EUR 1,1 bilhão — o maior investimento europeu da HongShan. A família Marshall manteve mais de 20% da empresa. As receitas mais que dobraram entre 2020 e 2024, chegando a aproximadamente EUR 400 milhões.

Em 2026, a Marshall celebrou 60 anos desde que Hendrix cruzou a porta da loja em Hanwell, lançando uma coleção comemorativa em preto e roxo cósmico — incluindo um half-stack hand-wired de edição limitada (apenas 300 unidades) e uma Acton III em veludo roxo. E os amplificadores continuam sendo montados em Bletchley, Milton Keynes, na Inglaterra — a 80 km dos galpões onde tudo começou.

Do menino com tuberculose ao império de um bilhão de euros: Jim Marshall provou que obsessão por som é a melhor doença que existe.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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