Música & Cultura 21 JUL 2026

Sonos: como quatro amigos em Santa Barbara inventaram o áudio multiroom e mudaram para sempre a forma como ouvimos música em casa

Da garagem californiana à revolução do streaming doméstico: a saga de John MacFarlane e seus cofundadores que transformaram caixas de som em plataformas conectadas — e quase destruíram tudo com um update de app.

MÚSICA & CULTURA

Em janeiro de 2002, enquanto a indústria de áudio ainda discutia se o MP3 era uma moda passageira, quatro amigos reunidos em Santa Barbara, Califórnia, tiveram uma visão que parecia absurda: toda a música do mundo, em todo cômodo da casa, controlada por um único sistema sem fios. John MacFarlane, Craig Shelburne, Tom Cullen e Trung Mai não eram engenheiros de áudio — eram empreendedores de software que haviam acabado de surfar a onda da internet. MacFarlane, o líder do grupo, havia construído a Software.com e vendido por impressionantes 6,4 bilhões de dólares para a Phone.com. Ele tinha dinheiro, experiência e uma frustração muito específica: queria ouvir música em toda a sua casa sem precisar de uma instalação profissional de áudio que custasse uma fortuna.

Rincon Audio: o nome que ninguém lembra

A empresa foi registrada como Rincon Audio Inc., uma referência ao Rincon Point, famoso pico de surfe perto de Santa Barbara. Mas o nome não durou. Em maio de 2004, a empresa foi rebatizada como Sonos — um nome que é ao mesmo tempo um palíndromo (lê-se igual de trás para frente) e um ambigrama rotacional (gire 180 graus e ele continua legível). A escolha não foi acidental: refletia a obsessão dos fundadores com simetria, equilíbrio e elegância — valores que permeariam cada produto que a empresa lançaria.

Antes de qualquer produto chegar às lojas, MacFarlane fez uma aposta ousada. Em 2004, conseguiu um espaço de demonstração na prestigiada conferência D2 de Walt Mossberg, o crítico de tecnologia mais influente da época. A demonstração foi um sucesso — mas veio com um aviso inesperado. Steve Jobs, que também estava no evento, procurou MacFarlane nos bastidores e o alertou sobre possíveis conflitos de patentes com o iPod. Era um sinal claro: a Sonos estava pisando em território que a Apple considerava seu.

Os primeiros produtos e o grande salto

Em 2005, a Sonos finalmente começou a vender seus primeiros produtos: o ZonePlayer ZP100, um amplificador de zona, e o CR100, um controle remoto dedicado com tela touchscreen. Era um sistema engenhoso, mas caro e nichado — destinado a audiophiles abastados dispostos a pagar um prêmio por conveniência. O verdadeiro gênio, porém, estava nos bastidores: a Sonos havia desenvolvido o SonosNet, uma rede mesh proprietária que permitia aos dispositivos se comunicarem diretamente entre si, sem depender do roteador Wi-Fi da casa. Essa decisão técnica garantia estabilidade e sincronia perfeita entre caixas em diferentes cômodos.

O ponto de inflexão veio em 2009 com o Play:5, o primeiro speaker all-in-one da marca. Sem necessidade de amplificador externo, sem controle remoto separado — bastava plugar na tomada, conectar ao app e a música começava. O Play:5 democratizou a proposta da Sonos e desencadeou um crescimento de vendas de 400%. De repente, a empresa não era mais um brinquedo de luxo; era um produto que qualquer entusiasta de música podia considerar.

Expansão e inovação constante

A década de 2010 foi de expansão agressiva. Em 2013, a PLAYBAR marcou a entrada da Sonos no mercado de soundbars, levando a experiência multiroom para a sala de TV. Em 2015, a empresa lançou o Trueplay, um sistema de calibração acústica que usava o microfone do iPhone para analisar as características de cada cômodo e ajustar automaticamente a equalização do speaker. Era o tipo de funcionalidade que demonstrava a verdadeira vantagem competitiva da Sonos: ser uma empresa de software que faz hardware, não o contrário.

Em agosto de 2018, a Sonos abriu capital na NASDAQ a 15 dólares por ação, validando seu modelo de negócios e arrecadando capital para a próxima fase de crescimento. No ano seguinte, duas jogadas estratégicas chamaram atenção: a parceria com a IKEA para a linha SYMFONISK, que trouxe speakers Sonos embutidos em móveis e abajures a preços mais acessíveis, e a aquisição da Snips SAS, uma startup francesa de inteligência artificial para voz — sinal de que a empresa queria competir com Alexa e Google Assistant em seus próprios termos.

A guerra de patentes e a Era Arc

Em 2020, a Sonos entrou em uma batalha jurídica épica contra o Google, acusando a gigante de ter copiado tecnologias patenteadas de multiroom após uma parceria colaborativa em que a Sonos compartilhou segredos técnicos. A Sonos venceu as primeiras disputas — uma validação importante para uma empresa com mais de 2.000 patentes em seu portfólio. No mesmo ano, lançou a Arc, sua soundbar flagship com Dolby Atmos, que rapidamente se tornou referência no segmento.

Em 2022, a empresa adquiriu a Mayht, uma startup holandesa, por 100 milhões de dólares, garantindo acesso à tecnologia Sound Motion de miniaturização de woofers — uma aposta no futuro de speakers cada vez menores com graves cada vez mais profundos.

O desastre de 2024: quando o software te trai

Se a história da Sonos fosse um filme, 2024 seria o terceiro ato trágico. A empresa lançou uma reformulação completa de seu aplicativo que foi amplamente considerada o pior redesign na história da eletrônica de consumo. Funcionalidades essenciais simplesmente desapareceram. Bugs tornaram speakers inutilizáveis. A comunidade — construída ao longo de duas décadas de lealdade — se revoltou. O impacto financeiro foi devastador: queda de 16% na receita. Em janeiro de 2025, o CEO Patrick Spence renunciou, encerrando uma era.

A ironia é cruel: a empresa que se definia como “software-first” foi destruída exatamente por seu software.

O legado que permanece

Apesar da crise, o legado da Sonos é inegável. A empresa inventou uma categoria inteira — o áudio multiroom sem fio — que hoje é copiada por Apple, Amazon, Google e dezenas de fabricantes menores. Seus speakers são agnósticos de plataforma, funcionando com Spotify, Apple Music, Amazon Music, Tidal e praticamente qualquer serviço de streaming existente. O compositor Philip Glass criou o logo sonoro da Sonos Radio, e a empresa mantém lojas conceituais em Nova York, Londres e Berlim.

A história da Sonos é, em última análise, a história de como a música deixou de ser algo que você vai até um cômodo específico para ouvir e passou a ser algo que te acompanha por toda a casa. MacFarlane e seus cofundadores não apenas construíram uma empresa — eles mudaram fundamentalmente a relação entre pessoas, espaços e som. O capítulo mais recente é doloroso, mas o livro está longe de terminado.

⌬ FIM · 6 min de leitura

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