O Fluance RT85 é um daqueles produtos que fazem você questionar por que marcas tradicionais cobram o dobro por especificações inferiores. Essa canadense relativamente jovem no mercado de vinil conseguiu montar um toca-discos com prato acrílico, motor servo-controlado por sensor óptico e — o golpe de mestre — a cápsula Ortofon 2M Blue já instalada de fábrica. Depois de três meses girando discos diariamente no RT85, posso afirmar: ele entrega uma experiência audiófila que normalmente exige investimento muito maior.
Design e construção
O RT85 é um toca-discos de visual clássico com toques modernos. A base em MDF de alta densidade está disponível em Piano Black, Walnut, Bamboo e White — todos com acabamento impecável. O modelo que testei, em Walnut, tem aquele charme vintage que combina perfeitamente com um setup hi-fi de sala de estar.
O gabinete é sólido e bem amortecido, com pés de borracha isolantes que fazem um trabalho razoável de desacoplamento mecânico. Não é o mesmo nível de isolamento que um Pro-Ject com pés magnéticos oferece, mas é adequado para a maioria dos ambientes domésticos — desde que o rack seja estável e a superfície, nivelada.
O peso de 7,6 kg confere estabilidade suficiente sem torná-lo difícil de manusear. É um toca-discos que você posiciona uma vez e esquece.
O prato acrílico
O grande diferencial visual e sonoro do RT85 é o prato de acrílico de alta densidade de 12 polegadas. Diferente dos pratos de MDF ou alumínio fundido comuns nessa faixa de preço, o acrílico tem propriedades de amortecimento de vibração superiores. As ressonâncias são absorvidas pelo próprio material em vez de serem refletidas de volta para o sulco do disco.
Na prática, isso se traduz em um som mais limpo e tridimensional. Comparando diretamente com o Audio-Technica AT-LP120X e seu prato de alumínio, a diferença é perceptível — especialmente em trechos acústicos, onde a redução de ruído de fundo revela detalhes que ficam mascarados em plataformas menos inertes. Não é uma diferença dramática, mas é o tipo de ganho incremental que audiófilos valorizam.
Uma vantagem prática: com prato acrílico, não é necessário usar mat de feltro ou borracha. O disco vai direto sobre o acrílico, o que simplifica o manuseio e elimina uma variável de estática.
Motor e controle de velocidade
O motor DC servo-controlado do RT85 é um componente que merece atenção especial. Diferente de motores DC convencionais que dependem da tensão aplicada para manter a velocidade, o RT85 usa um sensor óptico que lê a velocidade do prato 500 vezes por segundo, fazendo correções em tempo real. O resultado é um wow & flutter de apenas 0,07% — um número excelente para a faixa de preço e comparável a toca-discos que custam o dobro.
Na prática, isso significa que notas sustentadas de piano e cordas soam estáveis, sem aquela oscilação de pitch que denuncia toca-discos menos precisos. Coloquei o clássico Kind of Blue do Miles Davis — disco que conheço de cor em formato digital — e a estabilidade tonal foi impecável.
O sistema belt-drive (tração por correia) contribui para o isolamento do motor, reduzindo rumble mecânico transmitido ao prato. A correia é acessível para substituição e a Fluance vende reposições por preço justo.
Ortofon 2M Blue: o trunfo
Se há um único motivo pelo qual o RT85 se destaca da concorrência, é a inclusão da Ortofon 2M Blue de fábrica. Essa cápsula dinamarquesa custa, sozinha, cerca de US$ 235 — quase metade do preço do toca-discos inteiro nos Estados Unidos. É uma moving magnet de alto desempenho com stylus Nude Elliptical que rastreia os sulcos com precisão superior às cônicas e elípticas bonded encontradas em cápsulas de entrada.
A 2M Blue entrega uma assinatura sonora detalhada e levemente brilhante, com excelente separação de canais e rastreamento seguro. Médios são articulados e presentes — vocais ganham corpo e textura que cápsulas como a AT-VM95E simplesmente não alcançam. Agudos são estendidos sem sibilância excessiva, e graves são controlados e definidos, embora sem o peso que uma moving coil de alta saída proporcionaria.
O headshell removível é uma decisão acertada que facilita enormemente futuras trocas de cápsula. Se um dia você quiser fazer upgrade para uma Ortofon 2M Bronze ou Nagaoka MP-200, o processo é descomplicado.
O que falta
O RT85 não inclui pré-amplificador phono. Isso é uma decisão deliberada — a Fluance entende que um phono stage externo dedicado será superior a qualquer circuito integrado na base do toca-discos. Mas significa que compradores de primeira viagem precisam incluir um phono preamp no orçamento. Um Art DJ Pre II ou Pro-Ject Phono Box S2 são opções sólidas sem gastar uma fortuna.
O braço S-type em alumínio é funcional e bem ajustado, mas é claramente o componente mais econômico do conjunto. Não é ruim — o tracking e o anti-skating funcionam corretamente —, mas falta aquele refinamento que braços de fibra de carbono (como o do Pro-Ject Debut Carbon EVO) oferecem em termos de rigidez e ressonância controlada.
O recurso de auto-stop é bem-vindo e pode ser desativado para quem prefere controle manual total. Não há auto-return — o braço simplesmente para ao final do disco, sem voltar ao descanso. É um compromisso aceitável.
O elefante na sala: preço no Brasil
Nos Estados Unidos, o RT85 custa US$ 549 — um valor extraordinário considerando o que entrega. No Brasil, importado, o preço salta para cerca de R$ 10.350, o que muda completamente a equação competitiva. Nessa faixa, ele compete com o Pro-Ject Debut Carbon EVO e até com opções usadas de fabricantes como Rega e Thorens.
Mesmo assim, a combinação de prato acrílico + Ortofon 2M Blue + motor servo-controlado não é fácil de encontrar em nenhum concorrente direto por esse valor, mesmo no mercado brasileiro. Se você conseguir importar diretamente ou encontrar em promoção, o custo-benefício melhora significativamente.
Veredicto
O Fluance RT85 é um toca-discos que acerta onde importa. O prato acrílico, o motor com controle óptico de velocidade e, acima de tudo, a Ortofon 2M Blue de fábrica fazem dele uma proposta difícil de recusar para quem quer entrar no vinil com o pé direito ou fazer upgrade de um toca-discos de entrada. O braço poderia ser melhor e a ausência de phono preamp exige planejamento, mas essas são concessões menores num pacote que prioriza os componentes certos.
A garantia de 2 anos com suporte vitalício da Fluance é um diferencial que inspira confiança. Se o preço de importação no Brasil não assusta, o RT85 é o tipo de toca-discos que você compra uma vez e aproveita por uma década — trocando apenas a stylus a cada 1.000 horas. É vinil audiófilo sem drama.