Música & Cultura 20 JUL 2026

Focal: a fábrica francesa que produz cada driver à mão, inventou o tweeter de berílio e agora pertence à Barco

De uma oficina dentro da fábrica do pai em Saint-Étienne ao Comitê Colbert do luxo francês — como Jacques Mahul criou uma das únicas marcas de áudio que fabrica absolutamente tudo o que vende.

MÚSICA & CULTURA

No fim de 1979, o engenheiro e jornalista de tecnologia Jacques Mahul montou uma bancada dentro da France Filières, a fábrica de mecânica de precisão de seu pai, em Saint-Étienne, França. Não queria fazer caixas acústicas — queria fazer os drivers que vão dentro delas. Essa decisão aparentemente modesta definiria a identidade de uma das marcas de áudio mais respeitadas do planeta: a Focal fabrica cada componente acústico que vende, das máquinas de produção aos drivers finais, num grau de integração vertical que quase não existe mais na indústria.

JMlab e Focal: dois nomes, uma obsessão (1979–2005)

A marca nasceu dividida em duas: Focal era o nome dos drivers, vendidos para outros fabricantes de caixas; JMlab (“Laboratório de Jacques Mahul”) era a marca das caixas prontas. Os dois nomes coexistiram por décadas, até a unificação como “Focal-JMlab” em 2003 e, finalmente, apenas Focal em 2005.

Desde o início, Mahul apostou em inovação de materiais. Nos anos 1980, desenvolveu o tweeter de domo invertido — em vez do formato convexo tradicional, o domo curva para dentro, melhorando rigidez e dispersão. Essa geometria se tornaria uma assinatura da marca.

A Grande Utopia e o cone W (1995)

O momento que colocou a Focal no mapa da alta-fidelidade mundial foi o lançamento da Grande Utopia em 1995 — uma caixa de chão monumental que estreou o cone W (“W” de Glass/Glass): duas peles de fibra de vidro coladas a um núcleo de espuma estrutural, resultando num cone aproximadamente 20 vezes mais rígido que aramida (Kevlar), manufaturado à mão por laminação.

A Grande Utopia estabeleceu a Focal entre as marcas de referência absoluta do áudio — ao lado de B&W, KEF e Wilson Audio — e provou que uma empresa francesa relativamente jovem podia competir no topo.

Berílio: o tweeter impossível (2002)

Em 2002, a Focal apresentou o primeiro tweeter de domo invertido em berílio puro do mundo — um material extremamente leve e rígido que custa cerca de 100 vezes mais que ouro para ser processado. O resultado: resposta de frequência até 40 kHz com distorção mínima, cobrindo mais de cinco oitavas. O tweeter de berílio se tornou o padrão de referência nas linhas Utopia e Sopra.

O berílio é tão difícil de trabalhar que a Focal precisou desenvolver suas próprias máquinas para moldá-lo. Ninguém mais faz isso em escala para áudio.

Guia do Áudio

Inovações que definem o som Focal

Além do berílio e do cone W, a Focal desenvolveu ao longo das décadas um arsenal de tecnologias proprietárias:

  • Domo com perfil “M” — uma evolução do domo invertido com seção transversal em forma de M, que simetriza o estresse da membrana e melhora a consistência fora do eixo
  • Cone Flax (2013) — fibra de linho francesa prensada entre camadas de fibra de vidro, usada nas linhas Kanta e Aria
  • Slatefiber (2019) — fibra de carbono reciclada, a primeira aplicação de carbono reciclado em cones de alto-falante, estreando na linha Chora
  • NIC (Neutral Inductance Circuit) — circuito magnético com anel de Faraday que torna o fluxo magnético insensível à posição da bobina, reduzindo distorção

Fones, carros e monitores profissionais

A Focal expandiu além das caixas domésticas. Em 2012, entrou no mercado de fones de ouvido; em 2016, lançou o Utopia — um fone aberto de referência com drivers de berílio derivados da tecnologia das caixas, custando cerca de US$ 4.000. A linha hoje inclui o Clear MG, Elegia e os wireless Bathys (2022) e Bathys MG (2025).

Na divisão automotiva, fundada em 1989, a Focal fornece sistemas de áudio premium para Peugeot, DS Automobiles e oferece kits de upgrade para BMW, Mercedes e Tesla. Os monitores de estúdio profissional — Shape, Solo6, Twin6 — equipam estúdios de masterização ao redor do mundo.

Quem é dono da Focal

Em 2011, a Focal se fundiu com a britânica Naim Audio, formando o Vervent Audio Group. A gestão mudou de mãos algumas vezes — Naxicap Partners (2014), Alpha Private Equity (2019) — e em março de 2026, a belga Barco, gigante de projetores e tecnologia audiovisual, anunciou a aquisição de 100% da Vervent Audio Holding por cerca de €135 milhões.

Jacques Mahul se afastou da gestão ativa nos anos 2010. Em 2024, a Focal foi admitida no Comitê Colbert — a exclusiva associação francesa de marcas de luxo que inclui Hermès, Chanel e Cartier. Para uma fabricante de alto-falantes, é um reconhecimento sem precedentes.

A fábrica que faz tudo

Visitar a Focal em Saint-Étienne é entender por que a marca inspira reverência. Numa instalação de 17.400 m² com cerca de 300 funcionários, a empresa projeta e fabrica todos os seus drivers, cones, tweeters, crossovers, gabinetes — e até as máquinas usadas para fabricá-los. Essa integração vertical é quase única na indústria, onde a maioria das marcas terceiriza a produção de drivers para fornecedores asiáticos.

O resultado é controle total sobre a qualidade e, mais importante, sobre a inovação: quando a Focal quer experimentar um novo material ou geometria de cone, não precisa negociar com fornecedores. Basta descer ao chão de fábrica.

De uma bancada emprestada na fábrica do pai ao Comitê Colbert, a Focal prova que manufatura artesanal e inovação tecnológica não são opostos — são, na verdade, a mesma coisa.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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