Em 1952, insatisfeito com os pré-amplificadores disponíveis no mercado, o designer gráfico Saul Bernard Marantz sentou-se à mesa de cozinha de sua casa em Kew Gardens, Queens, e construiu o Audio Consolette — um pré-amplificador equipado com cada curva de equalização necessária para lidar com as gravações erráticas da época. A esposa Jean sugeriu que ele fabricasse mais. Saul produziu 100 unidades no porão. Esgotaram imediatamente. No ano seguinte, com uma fila de pedidos e nenhuma estrutura industrial, fundou a Marantz Company numa fábrica em Woodside, Queens. Tinha 42 anos e nenhuma experiência em fabricação de eletrônicos.
A era dourada: Model 7 e Model 9
Os primeiros anos da Marantz produziram alguns dos componentes mais reverenciados da história do áudio. O Model 1 (1954) foi um dos primeiros pré-amplificadores com equalização RIAA padronizada. O Model 7 (1958) ficou em produção por mais de 12 anos e vendeu mais de 130.000 unidades — o pré-amplificador mais popular de sua época. Exemplares originais são disputados por milhares de dólares no mercado vintage.
O Model 9 (1960) — um amplificador monobloco valvulado de 70 watts — era tão estável e confiável que a NASA o adaptou para uso no Programa Apollo: versões customizadas do circuito do Model 9 foram instaladas em estações de rastreamento ao redor do mundo para fornecer corrente estável em locais remotos. A Marantz teve um papel pequeno, mas crucial, em colocar homens na Lua.
O Model 10B (1964) trouxe um osciloscópio integrado para sintonização visual de FM — uma obra de engenharia deslumbrante que custava uma fortuna e vendeu pouco, mas cimentou a reputação da marca como referência absoluta em hi-fi.
O porthole: uma janela para o coração do amplificador
O porthole — a janela circular na frente dos equipamentos Marantz — é a assinatura visual mais icônica do áudio doméstico. Originalmente funcional, abrigando um VU meter analógico que mostrava a atividade interna do amplificador, o porthole evoluiu para um símbolo de transparência e artesanato. “Uma janela para o coração de um Marantz” — é assim que a própria marca o descreve. Seja analógico ou digital, o porthole aparece em cada componente, conectando oito décadas de design numa linguagem visual ininterrupta.
De Saul para o Japão — e para o mundo
Em 1964, Saul vendeu a Marantz para a Superscope por US$ 3 milhões — uma fração do que a marca viria a valer. Sob a Superscope, a Marantz atingiu seu auge comercial nos anos 1970: o lendário Model 2325 (1974), com 125 watts por canal, foi um dos receivers mais potentes já construídos. A era dos dials azuis, knobs simétricos e painéis champanhe gravados define até hoje o que muitos consideram a era de ouro do hi-fi.
Em 1966, a Superscope fechou parceria de produção com a Standard Radio Corporation no Japão. Em 1975, a Standard se renomeou Marantz Japan Inc. Em 1980, a Philips comprou a marca fora dos EUA e Canadá; em 1992, adquiriu os territórios restantes. Com a Philips, a Marantz lançou CD players icônicos — a linha CD-63 se tornou referência — e em 1991 anunciou o primeiro gravador de CD do mundo.
Ken Ishiwata: o homem que deu alma ao circuito
Ken Ishiwata entrou na Marantz em 1978 e permaneceu por 41 anos até sua morte em novembro de 2019, aos 72 anos. Engenheiro de som e embaixador da marca, Ishiwata era responsável pelos produtos “KI Signature” — versões de componentes Marantz que ele pessoalmente sintonizava, selecionando capacitores, ajustando circuitos e fazendo listening tests obsessivos até alcançar o timbre perfeito.
Produtos com suas iniciais — CD63mkII KI, PM66KI, a série Pearl, o KI Ruby — são considerados entre os melhores que a marca já produziu. Ishiwata personificava a filosofia Marantz de que o som deve emocionar, não apenas medir bem.
Denon + Marantz: irmãs, não gêmeas
Em 2002, Marantz e Denon se fundiram na D&M Holdings. Desde então, compartilham plataformas e patentes, mas mantêm filosofias sonoras distintas: a Marantz é quente, musical e envolvente — ideal para vinil, jazz e escuta intimista. A Denon é precisa, analítica e cinematográfica — excelente para filmes e gaming. A afinação final de cada marca é feita por pessoas diferentes no Japão. A Denon tipicamente oferece mais recursos pelo mesmo preço; a Marantz faz sua defesa na refinação e no design.
Cinco donos em 80 anos
A jornada corporativa da Marantz é digna de novela: Saul → Superscope → Philips → D&M Holdings → Sound United (2017) → Masimo (2022, por US$ 1 bilhão) → Harman International/Samsung (2025, por US$ 350 milhões). A aquisição pela Masimo foi tão mal recebida por investidores que a empresa perdeu US$ 5 bilhões em valor de mercado — e vendeu a divisão de áudio três anos depois por um terço do que pagou.
Hoje, a Marantz faz parte do portfólio da Harman (Samsung), ao lado de JBL, Mark Levinson, AKG, Arcam e Revel. A linha atual vai do amplificador integrado PM6007 (~€ 500) ao separado Reference 10 com Classe D Purifi — todos desenvolvidos no laboratório Shirakawa Audio Works no Japão.
Saul Marantz começou porque queria ouvir seus discos como eles mereciam. Sete décadas, cinco donos e uma passagem pela NASA depois, a marca que ele fundou na mesa da cozinha continua perseguindo o mesmo objetivo: fazer a música soar como música. O porthole continua aberto.
Redação Guia do Áudio