Música & Cultura 14 JUL 2026

Ultimate Ears: de um problema no palco do Van Halen ao domínio das caixas Bluetooth

Como Jerry Harvey transformou a frustração de um baterista em uma revolução nos monitores de palco — e como a Logitech transformou essa marca em sinônimo de som portátil.

MÚSICA & CULTURA

Em 1995, Jerry Harvey tinha um problema que nenhum manual de engenharia de som conseguia resolver. Como engenheiro de monitores de palco do Van Halen, ele assistia todas as noites ao baterista Alex Van Halen lutar para ouvir os outros membros da banda em meio ao volume ensurdecedor dos wedges — aqueles enormes monitores de chão que apontam para os músicos. Aumentar o volume só piorava tudo. Foi então que Harvey decidiu pensar menor: encontrou componentes miniaturizados no Japão e um alto-falante minúsculo originalmente projetado para marcapassos nos Estados Unidos, e criou um molde personalizado para o ouvido do baterista contendo dois drivers — um para graves, outro para agudos — separados por um crossover passivo. Quando Alex colocou o protótipo, a reação foi imediata: “Foi como noite e dia.” A Ultimate Ears havia nascido.

Do palco para o mundo

A notícia se espalhou rápido nos bastidores. A banda Skid Row, que excursionava com o Van Halen, foi a primeira cliente: seis pares vendidos por 3.000 dólares. Logo depois, o cantor Engelbert Humperdinck quis um par, e Harvey percebeu que tinha um negócio nas mãos. Junto com sua ex-esposa Mindy — com quem se divorciava no mesmo momento em que fundava a empresa — ele incorporou a Ultimate Ears em Las Vegas, Nevada.

O crescimento foi vertiginoso. Em 1998, o modelo UE-5 tornou a empresa significativamente lucrativa. Em 2000, os monitores intra-auriculares da UE já eram usados pelos Rolling Stones, Faith Hill, Enrique Iglesias e Red Hot Chili Peppers. Em 2002, a empresa abriu seu próprio laboratório de fabricação, contratando a audiologista Chomphorn “Noy” Soudaly. Em 2003, com apenas cinco funcionários, a Ultimate Ears detinha aproximadamente 80% do mercado profissional de monitores intra-auriculares.

O salto para o consumidor

Em 2004, a marca lançou o UE-5c, uma versão para consumidores por 550 dólares. No ano seguinte, o Super.fi 5 Pro estreou a 250 dólares, e em 2006, a empresa faturou mais de 10 milhões de dólares. A Ultimate Ears estava provando que a tecnologia criada para palcos de rock podia conquistar os bolsos dos audiófilos comuns.

Em 2007, Jerry Harvey deixou a empresa que fundou — ele já havia projetado os modelos UE-10 Pro e UE-11, os primeiros monitores intra-auriculares de três e quatro vias do mundo — e fundou a JH Audio, onde continua até hoje criando IEMs de referência. Mas a Ultimate Ears estava longe de perder o fôlego.

A era Logitech

Em agosto de 2008, a Logitech adquiriu a Ultimate Ears por 34 milhões de dólares. Na época, a aquisição parecia modesta: a Logitech queria expandir seu portfólio de produtos de áudio digital e ganhar presença no mercado de fones intra-auriculares. O que ninguém previa era a direção que a marca tomaria nos anos seguintes.

O ponto de virada veio em 21 de maio de 2013, quando a Ultimate Ears lançou o UE Boom — e redefiniu completamente sua identidade. Trata-se de uma caixa de som Bluetooth cilíndrica, do tamanho aproximado de uma lata de bebida grande, pesando 538 gramas, com um design que projetava som em 360 graus. Não importava onde você estivesse em relação à caixa: o som chegava igual. Era engenharia acústica séria disfarçada de produto pop.

A família Boom conquista o mundo

O UE Boom não foi apenas um produto de sucesso — foi o início de uma linhagem. Em setembro de 2015, veio o UE Boom 2, com certificação IPX7 de resistência à água e 25% mais volume. Em agosto de 2018, o Boom 3 refinou o design com tecido de alta performance. Hoje, a linha está na quarta geração com o Boom 4.

Paralelamente, a Ultimate Ears expandiu para todos os tamanhos. A família atual inclui:

  • Wonderboom — a menor e mais compacta, ideal para levar em qualquer lugar
  • Boom — o modelo clássico que definiu a categoria
  • Megaboom — mais volume e graves mais profundos, com 20 horas de bateria
  • Everboom — lançado em 2024, com IP67 e design flutuante
  • Epicboom — apresentado em 2023, com som imersivo de 360° e EQ adaptativo
  • Hyperboom — o modelo monstruoso para festas, o maior da linha

Todos compartilham o DNA visual da marca: o tecido trançado na superfície, os dois botões gigantes de volume no painel frontal e a construção à prova de água, poeira e quedas com certificação IP67. O recurso PartyUp permite conectar até 150 caixas simultaneamente via o aplicativo UE Boom — uma aposta ousada na experiência social que poucas marcas tentaram igualar.

A alma profissional permanece

Enquanto as caixas Bluetooth coloridas dominam as prateleiras e as redes sociais, a Ultimate Ears Pro continua fabricando monitores intra-auriculares customizados para músicos profissionais. Cada par é moldado sob medida para o ouvido do artista, oferecendo até 26 dB de isolamento passivo. O modelo topo de linha, o UE Premier, carrega 21 drivers e um crossover de cinco vias — um universo técnico distante das Boom, mas que compartilha a mesma obsessão por som.

Desde 1995, a divisão profissional já produziu mais de 100.000 monitores customizados. A lista de artistas que confiam nos IEMs da UE é um who’s who da música mundial.

O legado de uma gambiarra genial

A trajetória da Ultimate Ears é uma das histórias mais fascinantes do áudio moderno. Começou com um engenheiro de som frustrado e um baterista que não conseguia ouvir a própria banda. Passou por um domínio quase absoluto do mercado profissional de IEMs. Sobreviveu à saída de seu fundador e à aquisição por uma multinacional. E se reinventou como a marca que transformou caixas de som Bluetooth em objetos de desejo para qualquer aventura ao ar livre.

De Alex Van Halen a milhões de pessoas ouvindo música na beira da piscina, a Ultimate Ears prova que as melhores ideias nascem quando alguém se recusa a aceitar que “não tem solução”.

⌬ FIM · 5 min de leitura

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